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sábado, 29 de setembro de 2012 Bastidores, Homenagem | 18:11

Minha tarde com Hebe Camargo

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Hebe Camargo e este colunista, em 2009: uma tarde de entrevista/ Fotos: Fernando Dantas

Jornalistas não costumam ficar nervosos perto de ídolos. Tentam, pelo menos, disfarçar sempre que chegam perto deles. Há pouco mais de três anos, não consegui seguir essa regra. Depois de semanas tentando uma entrevista, finalmente ficaria frente à frente com Hebe Camargo. Na época, escreveria uma matéria de capa para a revista de domingo do “Diário de S. Paulo”, onde trabalhava, sobre os 80 anos da primeira-dama da TV. Cheguei com antecedência, sentei-me num dos sofás de sua casa e fiquei esperando. Hebe estava se arrumando no andar de cima. Obviamente, ansioso, me peguei com vontade de fazer xixi e um questionamento persistente: “pega mal usar o lavabo da casa da Hebe?”. Bobagem superada, a empregada me encaminhou até lá. A vontade de urinar quase passou ao me deparar com vários ovos Fabergé, com ouro e brilhantes, dispostos sobre a pia. É, não precisaria me beliscar mais. Aquela opulência me garantia: definitivamente estava na casa de Hebe.

O nervosismo se justificava: desde criança, sempre assisti ao programa da loira. Lembro do dia em que se vestiu de drag queen com Nany People, que recebeu a primeira turma da “Casa dos Artistas”. Chorei junto quando ela homenageou a amiga Nair Bello, que havia falecido há pouco. Estava a poucos minutos de ficar de cara com meu ídolo. Voltei a sentar no sofá. Sobre ele, uma almofada com os dizeres: “Existe um mundo melhor, mas é caríssimo!”. Ri sozinho e relaxei. Olhei pra cima e ela descia as escadas, elegante e séria.

A almofada, presente de Bya Barros para Hebe

Durou pouco o momento sisudo. Minutos depois parecíamos amigos de infância. Quis saber da minha vida, com quem era casado, que filmes meu parceiro havia feito. Perguntou como funcionava o gravador digital. Nem eu sabia direito. Acima de tudo, ficou surpresa ao perceber que eu lembrava de todas as datas icônicas de sua vida. Por exemplo: seu primeiro casamento coincidiu com o ano do golpe militar, em 1964. Disse que eu sabia mais da vida dela que ela mesma. Fiquei envaidecido.

Durante parte da entrevista, Hebe fez questão de me mostrar sua casa. Dividida em três pavimentos, um deles para reunir os amigos, com direito a sala de jogos e TV gigante. Andou de braços dados comigo por todo o espaço e começou a dividir preocupações. Naquele dia ainda iria à UTI veterinária para visitar Chamboca, uma de sua galinhas, que havia sido mordida por um dos cachorros da casa. Contou que comprou a casa ao lado da sua para que a vizinha parasse de mandar a polícia bater em sua porta por causa dos barulhos das festas madrugada a dentro. Mostrou-me uma faixa do CD que lançaria na época, ecoando por toda a casa. E disse: “Às vezes me pego brincando sozinha aqui na piscina. Se alguém visse de fora ia achar que me sinto uma adolescente”. E era mesmo.

A entrevista num dos muitos pontos da casa da apresentadora

Hebe não se furtou a responder nada. Falou, inclusive, sobre a morte. “Não tenho medo de morrer. Tenho é peninha, porque é tudo tão bonito!”, brincou ela, que lembrou que costumava morrer de rir em velórios quando estava na companhia de Nair Bello. E garantiu que liberou todo mundo para fazer o mesmo no dela. Depois, lembrou uma frase que a amiga Fernanda Montenegro lhe contou: “O que dói é ver que falta pouco”. Para o Brasil, nesse momento, dói muito, Hebe.

O selinho foi dado duas vezes para garantir a foto

Depois de posar para fotos, a apresentadora me chamou. Quis fazer uma foto comigo e com a almofada com os dizeres engraçados. Por fim, puxou-me e deu-me o selinho que eu morria de vontade – mas não tinha coragem – de pedir. Exigi que desse outro para o fotógrafo garantir o clique. E fui embora feliz da vida. Impossível esquecer esse dia. Impossível esquecer de Hebe. Para mim, você vai estar sempre viva.

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