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sexta-feira, 17 de maio de 2013 Entrevista, Novela | 05:00

Nanda Costa, a protagonista de 'Salve Jorge': 'Não adianta ficar ouvindo as críticas, tem de fazer bem o trabalho'

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Nanda: "Vou levar a Morena a vida toda no meu coração"

Tão logo gravou sua derradeira cena na pele Morena, a protagonista de “Salve Jorge”, Nanda Costa desabou na cama e dormiu. Literalmente. Afinal, depois de quase um ano de trabalho, a atriz pôde finalmente descansar sem a pressão de carregar uma mocinha de novela das nove e se preocupar em estudar as cerca de vinte cenas que gravava por dia. Foi exatamente depois dessa soneca, por volta das 23h30 da noite de quinta (16), que Nanda conversou com a coluna. Bem disposta e sem fugir de nenhuma pergunta, a atriz mostrou serenidade ao falar sobre as críticas que a novela sofreu e foca no ponto positivo: a enorme quantidade de pessoas que ajudou ao alertar para o tráfico humano.

Veja tudo o que acontecerá no último capítulo de “Salve Jorge”

Com larga carreira – e vários prêmios – no cinema, com longas bem recebidos pela crítica como “Sonhos Roubados” e “Febre do Rato” no currículo, a atriz não havia encarado ainda uma personagem do tamanho de Morena. Seu desempenho em novelas anteriores, como a Madá, de “Cobras & Lagartos”, e a Soraia, de “Viver a Vida”, chamou atenção, assim como sua performance na pele de Dolores Duran, no especial “Por Toda a Minha Vida”, que arrebatou a crítica. Como Morena, levou muita gente a achar que a garota de praia, que cresceu em Paraty, no Rio, tivesse origem na favela como a mocinha da novela. Não por acaso, pouco depois de alguns dias de férias, Nanda já pegará no batente de novo e rodará três filmes na sequência. Confira a entrevista a seguir.

IG: É mais intensa a despedida de uma novela quando se é protagonista?
NANDA COSTA: Foi mais intensa, mas senti mais quando gravei na quarta-feira (15), a penúltimo diária. Nesse dia a gente rodou o encerramento da novela com todo o elenco na cidade cenográfica do Alemão, com a Dona Áurea (Susana Faini), que sempre criticou a Morena, do lado, feliz. Senti um aperto no peito. Foi um mix de sentimentos: tristeza porque vai acabar, o vazio que fica e uma alegria enorme de ter trabalhado com a Dira Paes, que tanto admiro como pessoa e como atriz. Ela me ensinou muito. Foi um momento muito forte, veio aquela emoção e a gente foi confraternizar depois numa festa. Já chorei, me emocionei, ri, brinquei. A última cena que gravei na quinta-feira (16) foi a chegada da Morena no Brasil com o Theo. Um final feliz.

IG: Demora para se desligar do personagem ou isso ocorre de imediato?
NANDA COSTA: Eu desligo. Nas últimas semanas fui entendendo que estava acabando e fui me preparando para me despedir da Morena e não sofrer tanto. Para rodar a última cena, nessa quinta, eu fui super concentrada. Tive de fazer um esforço três vezes maior pra não sofrer. Mas agora não tem mais a última cena, acabou. Vou levar a Morena para a vida toda no meu coração.

IG: Já dá para avaliar o trabalho em “Salve Jorge”?
NANDA COSTA: Eu trabalhei muito nessa novela, foi um volume de trabalho muito intenso. Foi o maior desafio da minha vida e da minha carreira. Até então, nas outras tramas de que participei, as personagens não tinham nem um quinto do volume de cenas e da responsabilidade. Mas meu comprometimento sempre foi o mesmo com todas e sempre procurei fazer meu trabalho da maneira mais digna. A Morena era um desafio: foi a primeira protagonista escravizada, prostituída e favelada de uma novela das nove. Era muita novidade junta. Mas por meio dela pudemos alertar várias famílias para a questão do tráfico humano. Foi uma honra.

IG: Acha que houve um estranhamento do público em relação a Morena nos primeiros capítulos?
NANDA COSTA: Claro que houve. Todo mundo tem um pouco de dificuldade com novidade mesmo. Mas a gente conseguiu virar o jogo. Não demorou muito para perceber que as pessoas gostavam, torciam pela Morena. Confiei na Gloria Perez, que disse que não fui aposta, que me chamou pelo meu trabalho, por já ter me visto no cinema. Acho que teve, sim, essa resistência inicial por parte do público, mas confiei na equipe, na minha intuição e trabalhei com muito foco e dedicação. Não adianta ficar ouvindo as críticas, tem que fazer bem o seu trabalho.

IG: No final das contas, todos torceram por Morena. Ganhar de virada é mais gostoso?
NANDA COSTA: É muito mais gostoso. Toda essa crítica negativa, quando questionavam se eu daria conta de uma protagonista, me deu mais força e me estimulou mais para enfrentar o desafio. A maioria das pessoas que falava isso não conhecia meu trabalho no cinema, não viam que eu já tinha uma carreira atrás de mim.

Leia também uma entrevista com Nando Cunha, o Pescoço da novela: “Quem não gosta de ‘Salve Jorge’ não precisa ir pro Twitter meter o pau. É só mudar de canal.”

IG: Em dados momentos, nas redes sociais, “Salve Jorge” era alvo de piada por causa de erros de continuidade como o cabelo da Morena e coisas do tipo. Algumas pessoas passaram a assistir para criticar. O que achava disso?
NANDA COSTA: Eu achava ótimo que as pessoas estavam assistindo. Meu trabalho estava lá, feito com todo o carinho, amor e dedicação, assim como o de grande parte da equipe, totalmente envolvida na história. O importante é dar o recado. Se as pessoas estavam vendo pra falar mal ou bem, não importa. Importa que estavam vendo e, querendo ou não, foram alertadas para o tráfico de pessoas. Houve quem criticasse, mas chegou um momento que vi a maior parte das pessoas realmente curtindo a história. Erro de continuidade é normal em toda novela, não dependia de mim. Eu até ria de algumas coisas.

Numa cena com Rodrigo Lombardi: "Theo é o cara, sim, mas um cara humano"

IG: Cá entre nós, acha mesmo que o Theo (Rodrigo Lombardi) era “o cara” como na música do Roberto Carlos? Ele morava com a mãe, não se decidia com quem ficava…
NANDA COSTA: Eu acho que o Theo desde o começo tem aquilo que a Dona Áurea (Suzana Faini) falava pra Morena: “Cuidado, ele é impulsivo, do tipo que faz e depois pensa!”. Foi uma paixão muito avassaladora. No segundo capítulo eles já se beijaram, se apaixonaram e no final da primeira semana já tinha pedido de casamento. O Theo é um cara verdadeiro e honesto, mas impulsivo. E exatamente por isso erra como todo ser humano. Na música do Roberto tem uma frase que diz “Esse cara não sou eu, mas é o que eu gostaria de ser”. E ele é um pouco isso. Ele errou, mas os erros que cometeu foi por ter sido enganado. Ele é o cara, sim, mas um cara humano.

IG: No filme “Sonhos Roubados”, você já havia atuado num universo parecido com o da Morena. Teve algum tipo de preparação especial para a novela?
NANDA COSTA: A diferença é que, ao contrário da Jéssica, de “Sonhos Roubados”, a Morena se prostituia porque era forçada. O lado que mais busquei aprofundar foi nessa coisa do tráfico de pessoas, no sentimento, no coração, na essência. Vi filmes, li livros e pesquisei sobre o assunto. Um dos momentos que tocou meu coração foi quando conversei com a mãe de uma menina que que havia sido traficada e morta. Uma coisa é ouvir falar, outra é ver de perto. Deu uma raiva, uma angústia, uma impotência… Além disso, muita coisa a gente descobre na troca com outros atores. Tive a sorte de ter a Dira Paes como parceira e mãe, também aprendi muito com o Rodrigo Lombardi e o Adriano Garib. Mas a Morena foi muito bem desenhada pela Gloria Perez, a melhor composição está aí.

IG: Com a novela no ar, te procuraram para falar sobre casos de pessoas que passaram pelo mesmo que a Morena?
NANDA COSTA: Recebi muitos relatos do tipo em que a sobrinha de uma amiga sumiu e agora acham que ela foi sequestrada ao pensar sobre o assunto. Começaram a entender a desconfiança de algumas amigas e aumentaram as suspeitas. É uma situação muito difícil porque há a vergonha de falar sobre o assunto. Durante a novela muita gente me perguntava: mas por que a Morena não conta logo o que passou? Além de terrorismo que fazem, cercando e ameaçando as pessoas, há a vergonha de falar que teve de se prostituir num outro país. É um assunto muito sério. A Globo e a Gloria Perez fizeram muito bem ao abordá-lo.

IG: Como tem sido a recepção nas ruas?
NANDA COSTA: É até curioso. Às vezes eu estava em algum lugar público e vinha um pessoal dizendo: “Ah, que bom você tá trabalhando agora, fazendo uma protagonista. Você que veio da favela, que teve uma vida difícil e até passou fome…”. Em algum lugar essas pessoas acreditavam que eu era a Morena. E eu sou bem diferente dela, na verdade. Sou mais calma, falo baixo… Para um artista, isso é incrível! Prefiro manter minha vida pessoal mais reservada, quero que vejam primeiro a personagem e não a Nanda fazendo a personagem.

IG: Morena deu várias surras em Wanda (Totia Meirelles) e já saiu no braço com Lívia (Claudia Raia) e Maria Vanúbia (Roberta Rodrigues). Será que você vai ficar com fama de barraqueira? Como era gravar essas cenas?
NANDA COSTA: Era divertido gravar essas cenas, mas a novela continua, tem de tomar cuidado pra não se machucar. Foi gostoso de fazer porque eu tinha a sensação de que eram surras que o Brasil estava esperando para ver. O povo vibrou quando aconteceram. A cena da surra na Claudia Raia foi o pico de audiência da novela. A Claudia, aliás, foi generosíssima. Imagina bater na Claudia Raia? Sou menor que ela! (risos) Mas ela me mandava empurrar sem medo. É engraçado que possam achar que sou barraqueira, porque quando as pessoas me conhecem falam que eu sou diferente da Morena. Sou tranquila, falo baixo. Mas, como atriz, tenho de saber localizar em mim onde está a raiva, o tesão, o humor, a leveza. O artista tem de saber as ferramentas na hora certa. Mas se na vida eu precisar ser barraqueira em algum momento, serei. (risos).

Na cena da surra em Lívia: "Imagina bater na Claudia Raia? Sou menor que ela!"

IG: Ficou preocupada com a exposição por protagonizar uma novela das oito?
NANDA COSTA: Tomei cuidado com toda essa exposição. Me blindei e procurei não ficar ouvindo tudo o que falavam. Todo mundo quer ser técnico de futebol na novela também, é algo que o país inteiro vê todo dia.

IG: Incomodou ver muitas notícias a seu respeito?
NANDA COSTA: Antes, quando eu não tinha nem noção e nem dimensão de como funciona a mídia, eu via determinados veículos ou pessoas dizendo “fulano é assim” e acreditava. Então às vezes quando conhecia alguém já imaginava ele do jeito que diziam, quando, na verdade, a pessoa era totalmente diferente. Disseram tanta coisa distante do que sou em algumas notícias. Falaram que eu não interajo com as pessoas, que eu não me relacionava bem com o Rodrigo Lombardi, que eu me fazia de séria e que por isso eu não falava com ninguém… Coisas absurdas. Eu costumava brincar com a equipe, fazer piada! Agora, sim, na hora que é pra ser séria, que tem de trabalhar, eu sou séria. Parte da mídia criou uma Nanda Costa com a qual eu não me identifico.

IG: Ficava chateada com esse tipo de comentário?
NANDA COSTA: Um pouco. Mas acho que tudo bem também. Isso me deu força. Fiquei mais calejada. Acho que estou mais preparada e mais forte para os novos desafios. Depois de tudo o que vivi, tudo o que vier agora fácil será mais fácil. (risos)

IG: Inclusive outras protagonistas?
NANDA COSTA: Inclusive protagonistas. Por que, não?  (risos)

IG: Pretende se afastar da TV por um tempo?
NANDA COSTA: Renovei meu contrato com a Globo agora. Não tenho preferência por cinema, teatro ou TV. Prefiro bons personagens ou desafios. “Salve Jorge” foi uma delícia de experiência, com a qual aprendi muito. Esse ano ainda tenho três longas para rodar. Devo voltar em breve à televisão, mas acho bom descansar.

IG: Que tipo de personagem gostaria de fazer agora?
NANDA COSTA: Acho que uma vilã. Mas não tenho nada muito fechado, gosto mesmo é de bons personagens. Também adoraria fazer uma louca varrida, uma rica… Nunca fiz rica, só interesseira.

IG: Qual o legado que Morena deixa aos espectadores?
NANDA COSTA: Entender que a vida é muito mais simples. Às vezes, a gente sonha com uma coisa e a felicidade está do lado e ninguém percebeu. Acaba-se abrindo mão de amor e família por motivos nem sempre corretos. No caso da Morena, ela foi levada a isso por uma atitude nobre, que era manter a casa da mãe. Mas olha quanto sofrimento ela não teria evitado pra Lucimar, Júnior e toda a família se tivesse escutado a intuição da mãe e aceitado o pedido do Theo. É prestar mais atenção. O legado que Morena deixa é para dar valor às coisas mais simples e à família e ao amor. Além da arte de matar todos os dragões que surgirem no caminho, porque a vida não é facil pra ninguém! (risos)

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