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quarta-feira, 19 de junho de 2013 Crítica, Jornalismo | 04:21

Mesmo com âncoras atrapalhados, telejornais populares saem na frente na cobertura de onda de protestos

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Marcelo Rezende: erros geográficos e brigas com a equipe

“Virou um sururu na casa de Noca”. Dita assim, esta frase não parece ter sido dita de um jornalista durante momentos de tensão na cobertura da onda de protestos pelo país. Mas, acredite, ela saiu da boca de Marcelo Rezende, apresentador do “Cidade Alerta”, da Record. Desde o início das manifestações criadas pelo Movimento Passe Livre, o âncora viu a audiência de seu programa subir. O índice, que orbita em torno dos 9 pontos, na última terça-feira (18), chegou a picos de 15. E muito disso se deve à maneira peculiar com que o apresentador narra os fatos.

O espectador menos acostumado por ficar tonto tamanha é a, digamos, empolgação do jornalista, que alterna entre câmeras com rapidez e mais parece narrador de futebol ao falar sobre os conflitos. Falta só gritar gol. Por exigir tanto de sua equipe técnica, Rezende acaba brigando no ar com operadores de vídeo e áudio e repórteres. “Vamo, meu filho, eu já falei. O que é que tá demorando? Quem não fica agoniado desse jeito?”, reclama com alguém que opera a mesa de edição. Não por acaso, ele batizou a câmera do helicóptero da atração de “lente nervosa”. O jornalista demanda tanto que ordena, inclusive, em quais áreas ela deve focar. Por ser tão ansioso, acaba cometendo deslizes. Na segunda-feira (17), ao ver a massa de manifestantes na boca de um túnel, anunciou que estavam na Avenida Paulista. Na verdade, estavam nas imediações da Avenida Brigadeiro Faria Lima.

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O jeito reclamão acaba por vitimizar também repórteres. Ao chamar Fabiana Panachão num link ao vivo direto do Centro de São Paulo, Rezende resolveu dar uma aula à profissional, que estava visivelmente nervosa com o tumulto ao seu redor. “Alguém avisa que quanto mais calma ela falar, melhor! Fabiana, não dispute com o povo que está falando alto. Fale devagar e com calma”. E completou: “Como ninguém orienta, eu oriento”. Pouco depois, percebendo o medo da repórter com a multidão que começava a depredar a Prefeitura, o âncora voltou ao catequismo: “Fica calma, não tenha medo. Se grito superasse tudo o leão não era o rei da selva, era o elefante”. Fato é que Fabiana estava mesmo numa selva e teve de sair fugida do local quando atearam fogo num carro da emissora. Pelo visto, ela tinha mesmo razões para estar nervosa.

O método empregado por Rezende parece agradar ao público. Seus relatos são repletos de frases feitas ou engraçadinhas. “Se o Haddad fosse jogador de basquete, ele jogava a bola na sexta e a bola ia cair só no domingo, de tão lento que ele é”, disse em dado momento.

Datena: saia justa em enquete com e almoço com o prefeito negado

Principal concorrente de Rezende no horário, Jose Luiz Datena parece viver tempos de maior calmaria com o “Brasil Urgente”. Há dias faz questão de ressaltar que a grande massa dos protestos é de gente de bem. Diz admirar Dilma e elogiou sua postura no discurso feito na última terça. A simpatia, no entanto, não parece se estender a Fernando Haddad. Ao ser informado por sua produção que o prefeito de São Paulo não entraria no ar para uma entrevista por telefone, o âncora resolveu abrir segredos. “Fui convidado para almoçar com ele e não fui. Agora não precisa me convidar mais!”. Antes de receber a negativa, porém, apelou ao político dizendo que ele poderia falar o que quisesse se entrasse ao vivo no programa: “Estou aberto até a ser xingado”.

Com índices em torno dos 7 pontos, pelo segundo dia seguido Datena estendeu seu horário na emissora e entrou em edição extraordinária após o “Jornal da Band”, no lugar do espaço vendido à igreja. Nesse momento, pareceu mais empolgado e usou do mesmo truque do seu rival: exibiu à exaustão imagens de vândalos tocando fogo no carro da Record ou saqueando lojas. Um dia antes, o âncora se viu numa saia justa ao abrir enquete com espectadores. Mudou no ar a pergunta “Você é a favor de protesto com baderna?” ao ver que o resultado lhe desagradava.

Datena e Rezende podem ser alvo de crítica de quem não está acostumado com suas abordagens de casos como estes, mas o fato é que é preciso certo traquejo para comandar coberturas ao vivo por horas a fio. E eles têm, cada um ao seu modo. No “SPTV”, por exemplo, Carlos Tramontina pareceu um pouco desconcertado com as notícias de última hora, que certamente alteraram o roteiro de seu telejornal. Por vezes gaguejou ou mostrou hesitação.

Em tempos como estes, é compreensível que as emissoras dediquem espaço maior à exploração do assunto. Torna-se impossível não perceber as discrepâncias entre as coberturas jornalísticas quanto à forma e ao conteúdo retratados em seu noticiário. No ar por mais tempo que os telejornais “tradicionais”, os ditos populares parecem lucrar e explorar mais intensamente os conflitos. Isso nem sempre significa, no entanto, que eles saiam sempre na frente de outro tipo de concorrência. Por volta das 22h30, enquanto Datena repetia imagens dos saques no Centro, bombas explodiam na Bela Vista, um bairro próximo, com direito à Tropa de Choque reprimindo manifestantes. Curiosamente, nenhum canal mostrou o que ocorria ao vivo. Coube a um jornalista à paisana abrir seu celular e transmitir tudo em tempo real para as redes sociais. Mais de 20 mil pessoas assistiram a tudo simultaneamente, inclusive o momento em que ele questionou um policial que havia retirado sua identificação. São novos tempos. Não é à toa que até o “Jornal Nacional” teve de se explicar para os espectadores esta semana.

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